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Se você quiser pode ler o texto ouvindo: Passenger

 

Você já me disse muitas coisas difíceis de ouvir, algumas delas bem cruéis. Sofri em cada uma, mas perdoei todas as vezes. Já me tratou friamente, já me abandonou muitas vezes, mas quando voltava, o meu sorriso continuava o mesmo.

E o coração? Sempre cheio de amor e incapaz de guardar qualquer centímetro de mágoa. Era como se a cada volta sua zerasse todo o cronômetro da espera, da saudade, da angústia e nada mais me atormentava.

Não sabia dizer se o dom de me fazer esquecer a parte ruim era seu ou meu. Hoje sei. Tenho certeza que era um mérito meu, na verdade um demérito à mim. Fazia de conta que não fui ferida e me entregava a felicidade de ter você um pouco mais.

Nem eu conseguia entender o que me fazia relevar tanto, qual mistério existia em você que simplesmente apagava a memória ruim e conservava as melhores. Parecia feitiço, agora sei que não era.

Curiosamente, depois de suportar tanto, algumas últimas palavras suas, nem tão cruéis como muitas outras, fizeram com que eu acordasse do transe que me encontrei por tanto tempo. Acho que entendi o verdadeiro significado da expressão “a gota d´agua que fez o copo transbordar”.

Você conseguiu me fazer transbordar, me derramar inteira e finalmente entender que não exerce mais nenhum efeito sobre mim. Demorou eu sei, mas nem tão tarde foi. Deu tempo suficiente de olhar para trás e refletir que você nunca foi grande coisa.

Eu te inventei, reinventei… te transformei em alguém interessante enquanto te idealizava. Pena mesmo você não ser nada daquilo, sequer passou perto. Agora vejo que o mundo sem a sua sombra constante me rondando é muito mais interessante.

Acabou a sua gestão e a demissão foi por justíssima causa.